É noite. Não. Acho
que é madrugada.
Não dá pra saber. No sertão, a luz do gerador se apaga às
oito horas da noite. Eu acho. Não sei
direito. Sou só uma criança.
Estou com muito medo. Está escuro.
Ouço vozes. Escondo-me debaixo do banco. Vejo, na penumbra,
dois pares de pernas. São calças maltrapilhas. São calças de homens. São vozes
de homens.
O quê eles conversam? Não consigo discernir. Uma conversa
esquisita. As vozes estão esquisitas. Parece alguém que fala com a boca cheia.
Uma voz embolada.
Ouço um barulho. Um tilintar de vidro batendo: ‘tein’,
‘tein’, ‘tein’ ... mas não ouço o ‘crac’
de vidro quebrado.
Estou com muito medo... com muito medo...
Abro os olhos: é dia.
Vejo minha mãe. Vejo minhas irmãs.
Está tudo bem. Estou em casa. Foi só um sonho.
Onde eu estava? Numa praça? Não sei, mas não tem
importância. Amanhã vou sonhar tudo de novo e, dessa vez, vou descobrir....